Liderar, esperar e ser feliz

A cultura do "esperar" pode ser o elo perdido em busca de uma liderança mais humanizada. Em nossos tempos, esperar tornou-se uma "ação" muito difícil de executar, pois no entendimento da dinâmica da gestão moderna, esperar é sinônimo de não fazer nada, perder tempo ou resignar-se diante de algo.

A primazia do tempo medido em relação ao vivido possibilita a medição da temporalidade e nessa concepção igualou-se ao dinheiro e muito frequentemente relaciona-se com imediatismo, ansiedade e temor, assim, esperar significa perder tempo e sentir medo.


Transformamos tempo em uma coisa, uma mercadoria, satirizada por Chales Chaplin em Tempos modernos. A instituição da linearidade do tempo que nos leva a um ponto futuro, seja no caminhar que nos leva de onde estamos ao "alvo" que queremos chegar, seja na linha de produção que leva as partes que formam o produto acabado, seja no trabalho que nos leva a aposentadoria (tempo de serviço), ou seja na própria jornada de vida que nos leva a morte, a linearidade se relaciona com um ponto futuro distante, único e final, Essa linearidade que torna possível as pressões, cobranças e advertências, que instilam em nós o pavor deste marco do qual não se volta. Isso tende também a fazer com que desvalorizemos a passagem da trajetória , e tudo aquilo que com ela se relaciona.

Além de levar a desvalorização do cotidiano, a retilineidade princípio-meio-fim do tempo, dificulta muito a prática da tolerância, da serenidade e da compaixão, mas por outro lado estimula a "competitividade" . Tudo isso nos levou a desaprendizagem da "espera". A concepção linear do tempo tornou possível a apropriação e transformação em mercadoria - ponto central da da filosofia das linhas de montagem industrial e da ideia de produto acabado. A reificação, quantificação e comercialização do tempo fizeram com que ele se tornasse artificialmente escasso, e como tal, objeto de usura. Isso promove a apropriação da desvalorização da temporalidade e da subjetividade das pessoas. Nesse modelo de liderança, não há lugar para o ser humano individualizado, mas sim para o que Mariotti chama de "o homem recortado, o homem-função".

Perde-se então a possibilidade de compreender o caráter inspirador da co-inspiração, e surge em seu lugar a ênfase na liderança como produto acabado. Numa liderança que se entrega a autonomia e a responsabilidade do conviver e do fazer a um ponto futuro, relacionado a um "eleito superior" que se orienta para um fanatismo moralista e sem amar, cego ante os liderados e na urgência (tempo é dinheiro) por ser seguido e obedecido, ou que se orienta de um progressivo desencanto de si mesmo que leva a dor e ao ressentimento porque os liderados não se entregam como deveriam ao valor de seu "guia superior".

O líder passa então a ser uma força que não tem orientação própria, e que é portanto, servil a qualquer propósito, geram as cegueiras da liderança que tem por resultado que nós seres humanos, desapareçamos de nossa legitimidade humana e passemos a ser meros instrumentos para a satisfação dos desígnios de qualquer pessoa que viva na adição do poder.

Ao institucionalizar a temporalidade linear, deixamos de respeitar as diversidades das temporalidades individuais. Esta é a tônica da nossa cultura, na qual líderes impõem aos liderados (também a si próprios) o seu modelo mecânico de temporalidade. É claro que precisamos dessa linearidade para as práticas da vida mecânica, mas decididamente não precisamos dela como indutoras de paranoias.


Na sabedoria milenar Chinesa, no I Ching, o livro das mutações, um dos momentos das transformações universais, consiste em "Esperar". Esta visão sugere que "espera" é um momento de analisar a questão, avaliando o grau de dificuldade que esta a sua frente. Enquanto espera o tempo certo de agir, deve ir amadurecendo a ideia aos poucos preparando-se com honestidade ao momento que virá. Espera fala de reunir forças para enfrentar o desafio. Confúcio sugere a imagem de uma nuvem no céu que espera o momento certo para se transformar em chuva.

No ponto de vista qualitativo, o tempo não se ganha nem se perde: se vive. Compreender que é necessário reaprender a aguardar o nascer do dia, o cair da noite, a chegada de uma estação do ano, o desenvolvimento de uma ideia. Em uma sociedade patriarcal como a nossa, liderança tem a ver com domínio e apropriação que é uma característica masculina e espera é respeitar fazes, que é algo voltado ao universo feminino. Talvez aí seja um bom momento de aprendermos com a genuína expressão da liderança feminina, aprender com a "mulher" os mistérios da temperança e da serenidade. A mulher é um ser lunar, que sabe que precisa aguardar pelos grandes ciclos de seu universo orgânico: O menstrual, o gravídico, o do aleitamento. Ela sabe que não há como tentar acelera-los nem competir com eles sem que os resultados sejam desastrosos. É essa sabedoria do viver, que capacita para a sabedoria do conviver.

Fala-se em felicidade em ambientes organizacionais e isso muito tem a ver com a visão de liderança que tenha consciência da "espera". Estou me referindo aqui a felicidade que surge no aqui-e-agora, no convívio das pessoas - a felicidade solidária. Em geral não identificamos nosso cotidiano em um ambiente organizacional como "feliz", embora seja nele, não em um reino transcendental que temos de viver. Nossa mente tem pouca capacidade de entender e valorizar a felicidade que emerge da convivência. Um dos motivos para isso, é que esta não é facilmente apropriável e transformável em moeda de troca como se faz com o tempo.

Os obstáculos a essa compreensão são muitos, e fazem parte de modelos mentais profundamente arraigados a nossa cultura, segundo os quais é preciso competir, batalhar, ganhar muito dinheiro para poder comprar a felicidade. Na prática, não raro as pessoas acabam concluindo que é tão difícil ser feliz por estes meios que imaginam que sejam por todos os demais. Assim acabamos nos considerando muitas vezes, incapazes de ser feliz, seja de que maneira for.


A felicidade não está no término de uma linha de tempo, na qual o começo e o meio também estão predeterminados. A própria ideia de conquista subintende-a difícil e fugidia. Nesta ótica ela é considerada uma forma de vantagem e continuamos a persegui-la por toda a parte - menos onde realmente se encontra: No espaço de convívio com o outro humanamente legitimado e no respeito ao tempo que ela precisa para emergir.

Afirma Mariotti: "Saber esperar não é uma condição que deriva de um conjunto de regras, de um sistema filosófico ou de uma disciplina pragmática. Tampouco é uma condição transcendente, a qual devemos nos curvar movidos pela fé. Trata-se de uma dimensão importante da condição humana, e negá-la é negar a própria essência do viver."


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Referências -

I Ching - O tratado das mutações

Habitar humano - Humberto Maturana

Paixões do ego - Humberto Mariotti

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